
Foto: Internet
Em sua maior parte, o matrimónio é um maltrimónio. Os dois pensando somar, afinal, se traem e subtraem. Era o caso de Fula Fulano mais sua respectiva Dona Nadinha. O homem era um vidamundo, formado nas malandragens. A mulher era muda durante o dia. Mesmo que pretendesse não lhe saía palavra."..."No resto, se arredava, imóvel de fazer inveja às plantas. Se sentava a desfolhar fotos e postais.
Nadinha vivia por fotografia, sonhava por interposição de imagens recortadas em revistas. Coleccionava retratos, cromos, postais. Ficava horas contemplando as figurinhas. Assim, ela se desconhecia, desaparecendo de si mesma, invisibilizando a vida."..."Se enamorava das mulheres das capas, que lindas, nem transpiram, nem enrugam com os tempos."
Mia Couto, Contos do Nascer da Terra, Lisboa, Editorial Caminho, 2002

2 comentários:
Como queremos ser amados se não sabemos amar ? Como queremos verdade se nos camuflamos na inverdade ?
Nada se pode desenvolver com base no erro, porque o erro limita-se a envolver-nos no erro. É muito mais fácil verificar o erro do que encontrar a verdade. O erro está à superficie e com isso podemos nós bem. Porque reclamamos do que não temos se não damos ? Tudo é condicional, até o amor.
O Baralho de Mia Couto é a expressão viva e realista dos sentimentos, diria antes falta deles.
Mais uma vez gostei da postagem. Como não, vinda de ti ?
Cada vez mais o homem mergulha na multidão para afogar o grito do seu próprio silencio. Não o silencio de quem se encontra a si mesmo, mas o silencio de olhar em volta e não ver ninguém que nos devore os cinco sentidos.
Não são criados laços e esses (como a vida) faz parte da conquista: os afectos por merecimento e os desafectos por desmerecimento.
Quem não actua com amor não pode ser digno do amor.
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